Em 2025, o Brasil bateu um recorde que deveria nos fazer parar para pensar. Segundo o Ministério da Previdência Social, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais. É o segundo ano seguido de recorde, com alta de cerca de 15% sobre 2024, quando já tinham sido 472 mil.
Os transtornos ansiosos lideram a lista, com mais de 166 mil afastamentos, seguidos dos episódios depressivos, com mais de 126 mil. Mais de 63% dos benefícios foram concedidos a mulheres, um reflexo das duplas e triplas jornadas, da sobrecarga de cuidado e das desigualdades que ainda marcam o mercado de trabalho.
E esses números mostram só a ponta do iceberg. Eles contam apenas quem ficou afastado por mais de 15 dias. Ficam de fora os atestados curtos, o presenteísmo (estar no trabalho sem conseguir de fato estar) e todas as pessoas que sofrem em silêncio, sem diagnóstico e sem acesso a cuidado.
O sofrimento não começa no afastamento
Na clínica, aprendemos que o sintoma é uma mensagem. A ansiedade, a insônia, a irritabilidade e o esgotamento costumam aparecer muito antes da crise. Quando chegam ao ponto de afastar alguém do trabalho, em geral já percorreram um longo caminho sem escuta.
Como psicólogo e psicanalista, vejo diariamente que o sofrimento psíquico raramente tem uma causa única. Ele se constrói na história de cada pessoa, nas relações, nas exigências que ela se impõe e nas condições em que vive e trabalha. Por isso, respostas prontas não funcionam. O que funciona é escuta qualificada, método e acompanhamento contínuo.
O que mudou para as empresas
A atualização da NR-01 incluiu os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Na prática, a saúde mental deixou de ser apenas um benefício desejável e passou a fazer parte da gestão de riscos das empresas.
Isso é uma oportunidade. Organizações que tratam o tema com seriedade não apenas cumprem a norma: reduzem afastamentos, absenteísmo e rotatividade, e constroem ambientes onde as pessoas conseguem produzir sem adoecer. O caminho passa por três movimentos:
Diagnosticar: mapear os fatores de risco psicossociais por área e função, com instrumentos adequados.
Agir: transformar o diagnóstico em um plano priorizado, integrado ao PGR, envolvendo lideranças e RH.
Cuidar: garantir acesso real a atendimento psicológico e psiquiátrico, com sigilo e continuidade.
Acesso ainda é o grande desafio
Buscar ajuda ainda esbarra em estigma, custo, distância e falta de tempo. O atendimento online ampliou muito esse acesso: hoje é possível ter acompanhamento de qualidade em qualquer cidade do país, inclusive à noite, para quem trabalha ou estuda durante o dia.
Mas tecnologia sozinha não basta. Ela precisa estar a serviço de um cuidado ético, com profissionais bem formados, supervisão clínica e proteção rigorosa dos dados, em conformidade com a LGPD.
Um convite
Se você é gestor, olhe para os indicadores da sua equipe com a mesma atenção que dedica aos números do negócio. Se você é profissional, observe os sinais que o seu corpo e a sua mente estão dando. E se você está sofrendo, saiba que pedir ajuda não é fraqueza: é o primeiro passo para construir segurança para viver.
Na DHVida, é isso que buscamos todos os dias: unir escuta clínica, equipe multidisciplinar e gestão séria para cuidar de pessoas e de organizações.
Em situação de crise, ligue 188 (CVV) ou 192 (SAMU), ou procure o pronto-socorro mais próximo.
Fonte dos dados: Ministério da Previdência Social, benefícios por incapacidade temporária concedidos em 2024 e 2025.
#SaúdeMental #NR01 #RiscosPsicossociais #Psicologia #GestãoDePessoas #DHVida
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação com um profissional de saúde. Se você está em sofrimento intenso, ligue 188 (CVV).